Eis uma pergunta que eu tenho certeza de que já passou pela sua mente, ou talvez você já tenha ouvido alguém questionar: “Mas se a terapia é minha, por que eu preciso ficar falando dos meus pais? Eu sei que a responsabilidade é minha.” “Minha infância foi ótima, não tenho por que ficar falando dos meus pais. Está tudo bem, está tudo ótimo.”
Frases como essas escondem uma falta de conhecimento sobre comportamento humano, sobre a nossa dinâmica humana. Por isso, resolvi escrever este post e te explicar alguns aspectos que justificam o porquê é tão importante falarmos sobre os nossos cuidadores ao longo de um processo terapêutico.
Primeiro aspecto: nossos comportamentos são aprendidos
Boa parte dos nossos comportamentos são aprendidos. É verdade. A ciência comportamental já nos diz isso há muito tempo. Parte muito significativa dos nossos comportamentos nós aprendemos na interação com o nosso ambiente. E, querendo ou não, quando analisamos a nossa história, parte da nossa vida, principalmente a infância e adolescência — que é uma fase de grande expansão de aprendizagem —, nós passamos com a nossa família.
O que eu quero te dizer é o seguinte: os nossos pais/cuidadores nos influenciam muito. Eles participam diretamente da nossa aquisição de habilidades e comportamentos. Por isso, falar sobre eles, dentro da sessão de terapia, significa tentar compreender, mais profundamente, as dinâmicas de aprendizagem vividas dentro deste núcleo familiar.
Segundo aspecto: o vínculo é uma necessidade básica
Por mais óbvio que pareça, preciso dizer: nós somos mamíferos. Não sobrevivemos sem outro ser humano cuidando de nós. E o vínculo humano é algo muito particular. Ele ultrapassa os cuidados básicos como comida, água, temperatura, e sono. O vínculo humano envolve relações muito complexas como, por exemplo, afeto, linguagem e cuidado emocional. Precisamos trazer esse tema para dentro das sessões, para entender melhor como vivenciamos esse vínculo, pois os nossos pais e cuidadores são as nossas primeiras relações de confiança.
Quando somos menores, crianças e adolescentes, estamos 100% subemtidos aos cuidados destes personagens. E é por isso que precisamos aprender mais sobre a dinâmica desses vínculos: para compreender a dinâmica de afeto, de cuidados e identificar, inclusive, o que faltou, que tipo de parentalidade fomos submetidos e os desdobramentos destes modelos.
Terceiro aspecto: nossas crenças pessoais começam na infância
As nossas crenças pessoais começam a ser modeladas desde a nossa infância. E onde é que a gente começa a construir tudo isso? De novo, no ambiente familiar, na interação com os nossos pais. É por isso que é tão importante entendermos a dinâmica da comunicação dentro da nossa família. Como nossos pais se comunicavam conosco? Que tipo de referência eles faziam a respeito de nós, do nosso funcionamento, ao nosso modo de ser no mundo? Quais mensagens ouvíamos a respeito de nós mesmos?
Todo este contexto tem um impacto muito grande no modo como nos enxergamos atualmente, na vida adulta. Influencia, inclusive, no autoconceito que temos e na autoestima que construímos. Por isso, é muito importante entendermos essa dinâmica de comunicação e interação com os nossos pais. De modo a nos tornarmos mais conscientes de como “nossas verdades” se desenvolveram.
Quarto aspecto: falamos sobre os nossos pais para humanizá-los.
Parece que não, mas, em alguma medida, todos nós construímos algum senso de idealização a respeito de nossos genitores. Muitas vezes, é até difícil falar sobre eles, porque parece que não queremos modificar a imagem idealizada que temos. Principalmente quando tivemos pais que, aparentemente, foram muito competentes na sua função parental.
Acontece que todo pai e toda mãe, por mais esforçados que tenham sido, cometeram erros. Eles erraram, é verdade! Em alguma medida, é importante encararmos a realidade de como eles interagiram conosco, para que possamos quebrar essa idealização. Nossos pais são humanos, como nós. Tiveram histórias, talvez difíceis, traumáticas, limitações, privações e desafios que nunca conseguiremos supor ou imaginar.
Mas é muito importante que tentemos humanizá-los, tentando nos conectar com a realidade, com a essência desses personagens. Porque, a partir do momento em que enxergamos os nossos cuidadores como outro ser humano, como alguém que não é hierarquicamente superior a nós, muitas crenças, regras e expectativas começam a ser quebradas. Costumo dizer que falar sobre os nossos pais tem uma função muito importante: a de torná-los pessoas reais, aproximando-os da nossa realidade e da nossa própria história.
Dito tudo isso, eu quero te tranquilizar: não se preocupe em falar sobre seus pais na terapia. Isso não significa que você está desviando a atenção da sua responsabilidade. Pelo contrário, você está expandindo a sua consciência, compreendendo melhor quem você é e como se desenvolveu, a partir da análise do ambiente em que esteve inserido. Quando você compreende o impacto que seus cuidadores tiveram na sua vida, você se aproxima mais de quem você realmente é e das transformações que a terapia pode proporcionar.
Se chegou o seu momento de iniciar esta jornada, clique aqui e me escreva. Será um prazer conversar contigo!
Abraço carinhoso,
Mari