Dia desses, me vi atravessada por esta pergunta em uma situação comum do dia a dia. Como psicóloga, confesso que fiquei um pouco sem palavras no início. Afinal, como em muitas questões na Psicologia, não há uma resposta simples, não é mesmo?
Personalidade e características inatas
Podemos considerar a personalidade como um conjunto de características inatas. Aquelas tendências que nos acompanham desde o nosso nascimento. Quem tem filhos ou já conviveu de perto com crianças sabe que cada uma delas apresenta suas próprias particularidades desde muito pequenas. Algumas crianças são mais quietinhas, enquanto outras são um pouco mais choronas. Algumas sorriem com frequência, enquanto outras são menos sorridentes. Há aquelas mais agitadas e aquelas mais tranquilas. Assim, desde o nascimento, podemos observar que cada um tem características muito particulares.
Bom, a partir desse olhar, eu diria que é pouco provável que a terapia mude essas características tão profundas. Certos traços não são tão mutáveis dentro de uma relação terapêutica ou processo psicoterapêutico. Como profissional, dificilmente eu conseguiria ajudar a transformar alguém mais sensível em alguém completamente insensível, como uma pedra. Ou, por outro lado, fazer uma pessoa extremamente racional se tornar extremamente sensível. Essas mudanças radicais, esses extremos, quase nunca ocorrem na terapia. Então, sob essa perspectiva mais restrita, eu diria que a terapia não muda a personalidade.
Personalidade numa perspectiva mais ampla
Entretanto, se ampliarmos o olhar — como acredito ser o mais adequado —, e considerarmos a personalidade como algo que inclui tanto essas características de base quanto nosso repertório de vida, a resposta muda um pouco. Nosso repertório é formado por tudo que aprendemos ao longo da vida, pelas experiências que vivemos e pelas lições que elas nos trazem. A cada contexto em que estamos inseridos, aprendemos novos comportamentos e nos adaptamos, não é mesmo?
Eu entendo a personalidade como esse agrupamento das características de base, que carregamos desde o nosso nascimento, somado, claro, às experiências que vamos colecionando ao longo da nossa trajetória. Um mix entre nossas tendências inatas e os aprendizados que acumulamos. Olhando por essa perspectiva, eu diria que, talvez, sim, a terapia pode mudar a nossa personalidade. Sabe por quê? Porque, dentro da terapia, como já falei algumas vezes aqui, nós desenvolvemos habilidades e comportamentos novos. Basicamente, a terapia consiste em um processo de aprendizagem muito profundo e intenso.
Toda vez que desenvolvemos um comportamento novo, a nossa maneira de nos relacionar conosco e com o mundo muda. A habilidade de lidar com as situações do dia a dia se amplia, o repertório de possibilidades de interação e comportamentos cresce. Nos tornamos pessoas mais criativas. E apesar de não mudarmos a nossa essência, ao aprender novas habilidades, conseguimos lidar de maneira diferente com as características que já possuímos. O que muda tudo!
Vou te dar um exemplo pontual para que você consiga visualizar isso na prática. Usarei, aqui, a minha própria história. Desde pequena, sempre tive uma característica muito forte: a facilidade para executar tarefas, para “fazer acontecer”. O meu limiar para realizar atividades é bem alto. Desde a infância, sempre estive envolvida em muitas coisas. Durante a escola, na faculdade e no trabalho, sempre me dediquei a diversas atividades e isso acabou me levando a sofrer alguns episódios de Burnout.
Essa característica, esse limiar mais alto para operar, para executar, continua dentro de mim. Está aqui, presente. Se eu “der corda” para ela, acabo fazendo uma série de coisas sem nem perceber. Porém, com o passar dos anos, especialmente nos últimos tempos, venho trabalhando duramente para aprender novas habilidades, a fim de lidar de maneira diferente com essa característica inicial, tendência tão marcante em mim.
Neste processo, tenho aprendido habilidades de autocuidado, de perceber o meu corpo, de praticar atenção plena, além de habilidades para estabelecer limites, tanto comigo mesma quanto com os outros. Tudo isso tem me ajudado a lidar melhor com essa tendência inicial. Se você me conhecesse hoje, se começássemos uma relação agora, talvez nem imaginasse que eu tenho, dentro de mim, essa “potência” que descrevi. Bem diferente de outras pessoas que me conheceram em contextos passados, e que, talvez, diriam: “Nossa! A Mariana era uma máquina. Ela fazia tantas coisas que eu nem sabia como conseguia dar conta de tudo isso.”.Se olharmos por esta perspectiva, poderemos dizer que a minha personalidade mudou.
Afinal, a terapia muda a personalidade?
Eu prefiro acreditar, com base na minha experiência pessoal, que a terapia nos ajuda a ampliar a nossa personalidade. Ela aumenta o nosso repertório, permitindo que lidemos com as nossas tendências iniciais com muito mais refinamento e criatividade. Gosto de dizer que a terapia nos permite lidar com essas tendências de base de maneira mais sofisticada. Bonito isso, não é mesmo?
Por isso, pensando desta forma, sim, em certa medida, a terapia nos modifica, ela modifica a nossa personalidade! E eu estou te contando tudo isso para te inspirar esperança e te dizer que sim, você também pode mudar. Você também pode aprender a lidar com seus comportamentos difíceis, hábitos que te incomodam, dores que estão latentes. A terapia pode ser o seu espaço de transformação.
Desejo que este texto te encontre de maneira acolhedora e te encoraje a considerar o processo terapêutico como uma jornada de desenvolvimento. Não no sentido de modificar ou invalidar quem você é, de forma alguma! Mas para te ajudar a desenvolver novas habilidades. Habilidades que podem trazer mais clareza, mais equilíbrio e mais criatividade para lidar com a sua própria essência e com as situações adversas do seu dia a dia. Quase sempre, um novo olhar pode fazer toda a diferença.
Estou à disposição para batermos um papo. Clique aqui para me escrever.
Um abraço carinhoso,
Mari