Por que o término de um relacionamento dói tanto?

Escrito por:Mariana Cristina|

Relacionamento amoroso, apego, segurança afetiva e término costumam aparecer juntos no consultório, e não por acaso. Neste texto, quero ligar as nossas primeiras relações de afeto ao modo como amamos na vida adulta e explicar por que terminar uma relação pode doer tanto.

Existe um clichê sobre relacionamentos que, por muito tempo, me incomodou, inclusive como profissional. Mas a vida e os anos de atendimento me levaram a aceitar que ele provavelmente faz sentido: quando decidimos viver um relacionamento amoroso, de certo modo decidimos reviver experiências afetivas de alto impacto.

O que a infância tem a ver com o relacionamento amoroso

Na infância e na adolescência, cada pessoa vive de forma muito particular as suas primeiras relações de afeto, sobretudo com quem cuidou dela. Essas experiências constroem em nós uma espécie de GPS interno, que passa a orientar o modo como nos relacionamos ao longo da vida.

Ao entrar em um relacionamento amoroso, é quase como se permitíssemos que outra pessoa ocupasse um espaço emocional que já foi dos nossos cuidadores. Foram eles, inclusive, que calibraram esse GPS.

Esperamos que o parceiro ocupe o papel de pai ou de mãe?

Em alguma medida, sim, mas não no sentido funcional. A ideia é que todos sejamos adultos funcionais, com ou sem relacionamento. O ponto é afetivo: esperamos que o parceiro ou a parceira ocupe um lugar dentro de nós capaz de promover segurança afetiva, como precisávamos viver na infância e na adolescência.

Nem todos os cuidadores conseguiram oferecer esse ambiente seguro. Por isso, cada GPS foi calibrado de um jeito único. Ainda assim, quando escolhemos dividir a vida com alguém, queremos e precisamos construir segurança afetiva.

Quando o relacionamento vira um estado de alerta

Por muitos motivos, essa construção pode não dar certo: diferenças de funcionamento, de momento de vida ou de valores, ou a inflexibilidade de uma ou das duas partes. O encontro, então, se parece mais com uma colisão.

Nesse cenário, a relação passa a ser vivida no oposto da segurança afetiva, em alerta e hipervigilância constantes. Há muito medo de perder o outro e, ao mesmo tempo, muito desconforto em permanecer. É como pisar em um chão que não parece firme.

Por que é tão difícil terminar um relacionamento

Para muitas pessoas, terminar significa admitir que a segurança afetiva não foi alcançada. E aceitar isso dói muito.

Para outras, o término representa um desamparo ainda maior. Mesmo sem segurança afetiva, a relação oferecia previsibilidade: era possível saber o que ia acontecer, e isso regulava, ainda que parcialmente. A lógica, muitas vezes silenciosa, é: melhor ficar onde não há segurança do que ir para um contexto totalmente imprevisível.

Por que o término dói tanto

Términos nos fazem revisitar sensações de desamparo e de abandono. Eles tocam de novo aquele lugar sensível, o GPS calibrado na infância e na adolescência.

Crescemos e nos tornamos adultos, mas a necessidade de vínculo e de segurança emocional permanece. Ela não passa; ela se transforma. O modo como buscamos essa segurança nas relações amadurece e se diferencia, mas a necessidade continua a mesma.

Por isso, terminar um relacionamento amoroso pode ser vivido como a dissolução de uma tentativa de acalmar o sistema nervoso. Perde-se o contexto em que, enfim, parecia possível se sentir seguro, e volta-se, em alguma medida, para a insegurança.

Como lidar com o término: atualizando o seu GPS interno

No consultório, defendo a importância de um bom processo de autoconhecimento. Não só para compreender essas dinâmicas, mas para aprender a lidar com as sensações que surgem quando um vínculo se forma ou quando ele termina.

Para chegar a um lugar saudável e confortável sozinho depois de um término, é importante atualizar esse GPS. E a forma mais cuidadosa e amorosa de fazer isso é construir um eixo de segurança interno e pessoal.

Isso não significa que um relacionamento futuro deixará de ser uma busca por segurança emocional. Sempre será: sempre esperamos encontrar no outro esse ponto de apoio. Mas, quando essa segurança já existe dentro de nós, fica mais fácil construí-la também na relação com o outro.

Se você está passando por um término ou percebe que costuma viver seus relacionamentos em estado de alerta, a psicoterapia pode ser um espaço para entender a sua história e construir essa segurança interna. Agende uma conversa!

Mariana Cristina Fernandes

Psicóloga Clínica com mais de 20 mil horas de atendimento. Especialista em Terapia Comportamental, Psicoterapia Analítica Funcional e Psicopedagogia. Fundadora de uma clínica em SP, atua presencialmente e online. Desde 2016, compartilha conteúdos sobre saúde mental e desenvolvimento humano.

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