O que faz um relacionamento resistir ao longo do tempo?

Escrito por:Mariana Cristina|

É muito comum fazermos grandes listas de prós e contras, qualidades e características que gostaríamos de encontrar em um parceiro ou em uma parceira. Listas sobre aquilo que queremos. Sobre aquilo que não aceitamos. Sobre as características que imaginamos que seriam importantes para que um relacionamento desse certo.

Mas existe um aspecto que, para mim, é um dos ativos mais preciosos dentro de um relacionamento: a flexibilidade para mudar.

Essa é uma conversa muito recorrente ao longo dos meus atendimentos. Afinal, relacionamento é um dos temas mais presentes nas sessões de terapia. E não é difícil entender o motivo.

Acontece que a vida está longe de ser estática. Nós mudamos. Nossos desejos mudam. Nossos planos mudam. As circunstâncias mudam. E aquilo que imaginávamos para nós mesmos alguns anos atrás pode já não fazer tanto sentido hoje. Por isso, um relacionamento saudável também precisa ser capaz de mudar.

Quantas versões de nós mesmos cabem em um relacionamento?

Recentemente, saí de um atendimento em que conversávamos justamente sobre isso. Fiquei bastante reflexiva e me fiz uma pergunta: “Quantas Marianas eu já fui ao longo dos últimos dez anos de relacionamento com meu marido?”

A resposta não foi exatamente surpreendente: muitas.

Eu mudei muito ao longo desses anos. Em vários sentidos, em muitas camadas.

Mudaram coisas que eu queria, coisas que eu acreditava, a maneira como eu me relacionava comigo mesma, meus interesses, meus planos, minhas necessidades e também a forma como eu enxergava o mundo.

E o mesmo aconteceu com ele. A pessoa com quem eu me relaciono hoje não é exatamente a mesma pessoa com quem comecei esse relacionamento dez anos atrás.

E eu também não sou.

Talvez um dos grandes desafios — e, ao mesmo tempo, uma das grandes possibilidades — de um relacionamento de longo prazo esteja justamente aí: continuar escolhendo e conhecendo alguém que também está em movimento.

Um relacionamento saudável precisa ser mutável!

Um relacionamento saudável precisa ter abertura para que ambas as partes se adaptem e aprendam novos repertórios.

Se a ideia é que duas pessoas continuem se desenvolvendo ao longo da vida, é preciso que exista espaço para que o relacionamento também se desenvolva. É preciso adaptação para que o casal possa continuar se reencontrando e se encaixando cotidianamente. E isso não significa simplesmente “aceitar tudo” ou abrir mão de quem somos para manter uma relação.

Flexibilidade não é ausência de limites.

Flexibilidade é a capacidade de perceber que o contexto mudou e, diante disso, ser capaz de construir novas formas de estar naquela relação.

Porque talvez o relacionamento que funcionava muito bem há cinco anos não seja exatamente o relacionamento de que vocês precisam hoje.

E tudo bem.

O problema aparece quando uma das partes se coloca em uma posição muito inflexível, como se o outro precisasse permanecer exatamente igual para que a relação continuasse funcionando.

Nesse cenário, temos um grande desafio.

A relação pode se transformar em uma experiência de sofrimento para pelo menos uma das partes, especialmente quando existe a sensação de que apenas uma pessoa está caminhando, aprendendo, se revendo e buscando mudanças.

Nós nos tornamos outras pessoas ao longo da vida — e nossos parceiros também.

Um relacionamento de longo prazo exige, portanto, uma certa disponibilidade para conhecer novamente aquela pessoa que está ao nosso lado.

Reencontrá-la.

Perceber quem ela se tornou.

Permitir que ela nos conheça novamente também.

E fazer isso repetidas vezes.

Não é fácil.

Demanda muito trabalho, atenção, dedicação e disposição de ambas as partes.

Mas talvez seja justamente essa capacidade de adaptação que permita que duas pessoas continuem construindo uma vida juntas mesmo quando a vida deixa de ser aquela que elas haviam imaginado.

No fim das contas, um relacionamento não resiste ao tempo porque as pessoas permanecem iguais.

Ele resiste porque existe espaço para que ambas mudem — e para que o casal encontre, repetidamente, novas formas de estar junto.

Mariana Cristina Fernandes

Psicóloga Clínica com mais de 20 mil horas de atendimento. Especialista em Terapia Comportamental, Psicoterapia Analítica Funcional e Psicopedagogia. Fundadora de uma clínica em SP, atua presencialmente e online. Desde 2016, compartilha conteúdos sobre saúde mental e desenvolvimento humano.

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