Deixa eu te contar uma história.
Esse texto vai ser um pouquinho mais longo, mas eu acho que tem uma pequena pérola aqui que pode ser importante para você.
Para começar essa história, eu preciso voltar bastante no tempo — lá para a minha adolescência. Eu fiz o ensino médio e técnico em uma escola muito distante da minha casa. Eu cresci na periferia de São Paulo, na zona leste da cidade, e estudava em uma escola técnica em outro bairro, na zona sul.
Essa mudança de ambiente abriu muito o meu mundo. Eu passei a conhecer lugares, pessoas e realidades que eu não conhecia até então.
Ao lado da escola onde eu estudava havia — e ainda há — uma loja que sempre foi um grande mistério para mim e para as minhas amigas na época. Naquela escola, a gente podia sair do prédio durante o intervalo. Era um ambiente muito aberto. Então, muitas vezes, a gente dava uma volta no quarteirão ou saía para comprar alguma coisa na rua.
E sempre passávamos na frente dessa loja.
Era uma loja curiosa. A porta era discreta, quase escondida. As janelas de vidro deixavam ver apenas alguns fragmentos do que havia lá dentro. E o que a gente via chamava muito a atenção: lustres grandes, brilhantes, imponentes — daqueles bem chamativos. Para nós, adolescentes, aquilo parecia coisa de outro mundo. A gente nunca entrou na loja.
Ficávamos fantasiando: “Deve ser uma loja caríssima.” “Deve ser loja de gente rica.” “A gente nunca vai ter dinheiro para comprar nada aí.”
Passei os três anos de escola alimentando essa fantasia. E nunca entrei. Os anos passaram. Muitos anos. Décadas quase. Hoje eu moro nesse mesmo bairro. E com alguma frequência passo em frente a essa loja — de carro, a pé, no caminho do dia a dia.
Algum tempo atrás, contei essa história para o meu marido. Falei sobre como, quando era adolescente, eu imaginava que jamais poderia entrar naquele lugar. E isso com base apenas na realidade que eu conhecia naquela época.
A tal loja, na verdade, é uma loja de iluminação: luminárias, lustres, peças decorativas. Tem coisas muito caras, sim, mas também tem coisas mais acessíveis.
Durante esse período recente de mudança de casa — reforma, decoração, escolhas para os ambientes — eu perguntei para o meu marido se ele topava ir comigo até lá. Eu queria finalmente conhecer o lugar e descobrir se havia algo que fizesse sentido para a nossa casa.
Nós fomos. Comprei um item. E hoje, alguns meses depois, precisei comprar algumas lâmpadas. Decidi passar lá novamente, porque sabia que encontraria exatamente o que queria.
E foi ali que percebi algo interessante.
Esse texto não é sobre dinheiro.
Não é sobre poder aquisitivo.
Não é sobre privilégio de poder comprar algo numa loja.
O ponto não é esse.
O que me chamou a atenção foi perceber quantas fantasias a gente constrói na nossa mente quando é jovem — quando somos crianças ou adolescentes — e como essas fantasias podem nos acompanhar por muitos anos.
Mesmo depois de adulta, morando perto da loja, eu ainda hesitei várias vezes antes de entrar ali.
Por quê?
Por conta da crença que eu criei lá atrás: a fantasia de que aquele lugar não era para mim.
E, mais uma vez, isso não tem a ver com dinheiro. Tem a ver com as verdades que criamos dentro do nosso mundo interno — um mundo paralelo feito de interpretações, suposições e conclusões que tiramos muito cedo.
Às vezes, sem perceber, a gente passa anos se protegendo, se limitando ou deixando de experimentar coisas por causa dessas fantasias antigas.
Hoje, quando entrei na loja para comprar as lâmpadas, a senhora que me atendeu — um doce de pessoa — disse que lembrava de mim da outra vez que estive lá. Eu contei rapidamente essa história para ela.
Ela sorriu e disse algo simples: “Que bom que você entrou. Você é muito bem-vinda aqui.”
E eu fiquei pensando em como é bonito quando a gente consegue quebrar algumas das nossas fantasias. Como é bonito quando conseguimos flexibilizar crenças que criamos sobre o mundo, sobre os lugares e até sobre nós mesmos.
Às vezes, tudo o que precisamos fazer é experimentar.
Tocar com as próprias mãos. Tentar fazer diferente. Colocar à prova aquela história que contamos para nós mesmos por tantos anos.
Esse texto não é sobre iluminação.
Não é sobre lustres.
Não é sobre lâmpadas.
E definitivamente não é sobre dinheiro.
Esse texto é sobre o quanto, talvez, você também precise flexibilizar algumas fantasias que carrega há anos dentro de você.
Com carinho,
Mari






