O desconforto necessário para sair do lugar
Recentemente, compartilhei um pouco sobre algo que acontece nos bastidores da terapia e que considero muito importante. Eu dizia naquele texto que, em algum momento, muitos clientes de psicoterapia são convidados a fazer exatamente aquilo que não gostariam de fazer.
O paciente deprimido é convidado a se ativar, a se comportar, a se relacionar. Um paciente com TDAH é convidado a desenvolver uma rotina mais bem estabelecida, um pouco mais rigorosa. Enfim, são convites para fazer exatamente aquilo que não é confortável.
Neste texto, quero seguir essa trilha, trazendo um ponto complementar que tem aparecido com frequência em algumas sessões.
Em muitos momentos da nossa vida, precisamos tracionar um pouco mais para conseguir chegar àquilo que desejamos. Quando estamos em momentos de platô, em períodos muito longos no mesmo estado, fazendo as mesmas coisas, repetindo e patinando nos mesmos contextos, passamos a perceber o fazer diferente como algo muito difícil, muito complicado.
É como se enxergássemos o comportamento novo como uma montanha muito alta, difícil de ser escalada, trilhada e alcançada. Por isso, tentamos facilitar esses processos por meio de alguns arranjos comportamentais. Mas não dá para privar o cliente — nem a nós mesmos, porque isso acontece com todos nós — do desconforto do processo.
O platô comportamental e a dificuldade de mudar
Sair de um estado de platô e subir uma montanha que parece muito íngreme e desconfortável sempre envolve uma boa dose de incômodo. É justamente por isso que, às vezes, precisamos nos tracionar um pouco, nos jogar para a frente, nos empurrar na direção daquilo que desejamos, para ganhar uma arrancada e começar.
Dentro de um processo terapêutico, nós, terapeutas, às vezes também precisamos tracionar um pouco para que o cliente dê um passo, para que ele avance. Fazemos combinados, estabelecemos objetivos e tentamos monitorar alguns movimentos mais de perto para oferecer esse impulso inicial.
Isso pode ser muito desconfortável. Dependendo de qual é o platô e de qual é a montanha que a pessoa precisa subir, essa experiência pode ser extremamente incômoda. Mas, na maioria dos casos, ela é necessária.
Para sair de um estado muito confortável — e aqui “confortável” vem entre muitas aspas — é importante que a gente se arrisque. E, à medida que nos arriscamos, forças dentro de nós começam a nos puxar para trás. Contamos histórias na nossa mente que explicam por que devemos ou não devemos fazer determinada coisa. Justificamos a não ação. Damos voz ao não comportamento.
Por que a terapia também envolve desconforto
Criamos narrativas extremamente convincentes para, de alguma forma, nos acalentar diante do fato de não termos feito aquilo que precisava ser feito. Acontece que, para que a gente tracione, ganhe impulso e comece essa subida, precisamos lutar contra todas essas forças que estão ali tentando nos proteger.
Mudar está longe de ser simples.
Sair de um estado muito conhecido para alcançar um ponto desconhecido e íngreme envolve uma experiência emocional bastante desafiadora. É por isso que um processo terapêutico bem conduzido conta com esses desconfortos. Nem sempre você sairá de uma sessão se sentindo melhor do que entrou. Muitas vezes, sairá se sentindo um pouco mais tracionado, um pouco mais desconfortável.
E isso faz parte do processo.
Com carinho,
Mari




