O paradoxo do tratamento psicológico: quando o paciente precisa fazer justamente o que menos consegue

Escrito por:Mariana Cristina|

Sem sombra de dúvidas, um dos desafios mais importantes que nós, terapeutas, encontramos na clínica tem a ver com os paradoxos do tratamento.

Muitos clientes chegam à terapia buscando ajuda para transtornos já instalados ou para condições do neurodesenvolvimento que fazem parte da base do funcionamento daquela pessoa, como o TDAH, por exemplo. Outros chegam atravessando transtornos adquiridos ao longo da vida, como quadros depressivos, ansiosos, entre outros.

E existe um momento do tratamento em que precisamos lidar com a angústia do oposto.

Uma pessoa em estado depressivo, por exemplo, geralmente não deseja se relacionar, sair, se expor, fazer atividade física ou se movimentar. Mas tudo isso costuma fazer parte importante do próprio tratamento. Ou seja: aquilo que ela menos consegue fazer é justamente aquilo de que mais precisa naquele momento.

Com o TDAH, esse paradoxo também aparece de maneira muito evidente. Muitas pessoas têm enorme dificuldade de estabelecer consistência, criar rotina, iniciar tarefas e sustentar execução. Essa é justamente a estrutura do transtorno: existe interesse, desejo, ideias, curiosidade — mas pouca iniciativa, pouca continuidade e muita dificuldade de ação. E, ainda assim, tudo o que essas pessoas mais precisam é exatamente construir uma estrutura de vida baseada em hábitos saudáveis, rotina e constância. Precisam criar estímulos externos que ajudem a compensar aquilo que o próprio transtorno dificulta internamente.

Veja como isso pode soar quase incômodo, às vezes.

Enquanto terapeuta, muitas vezes eu escuto: “Mas essa é justamente a parte que eu não consigo fazer.” E eu sei. É exatamente por isso que, em muitos momentos, nós precisamos tutorar, acompanhar, pegar na mão, caminhar junto. Existem manejos clínicos que podem ajudar nesse enfrentamento. Não são milagrosos, mas podem facilitar a construção desse caminho. Ainda assim, existe uma realidade da qual não dá para fugir: precisamos assumir responsabilidade pelas nossas necessidades emocionais e pelas dificuldades que temos.

Eu converso muito com os meus clientes sobre isso.

Não dá para cuidar daquilo que a gente não reconhece. Não dá para desenvolver saúde, bem-estar e vitalidade sem assumir que existem dificuldades que demandam cuidado, atenção e esforço contínuo. Uma pessoa com TDAH que passou anos da vida tendo dificuldade de execução e iniciativa não pode esperar que, em algum momento, tudo simplesmente aconteça de maneira natural. Não vai. E isso também vale para a medicação. A medicação pode ajudar muito e, em muitos casos, é extremamente importante. Mas ela faz apenas parte do processo. A outra parte — talvez a mais importante — ainda depende da responsabilidade do próprio sujeito diante da própria vida.

Não é possível tratar depressão, ansiedade, TDAH ou qualquer outro transtorno sem reconhecer sua existência e sem aceitar que o tratamento frequentemente caminha justamente na direção daquilo que menos queremos fazer. E eu sei o quanto isso pode ser desconfortável. Sei o quanto pode ser custoso, difícil e, para algumas pessoas, quase inimaginável dependendo do estado em que chegam à terapia.

Mas não existem atalhos consistentes para esse caminho.

Em muitos casos, parte da solução está exatamente naquilo que evitamos, naquilo que não nos agrada, naquilo em que ainda não temos fluência.

 

Com carinho,

Mari

Mariana Cristina Fernandes

Psicóloga Clínica com mais de 20 mil horas de atendimento. Especialista em Terapia Comportamental, Psicoterapia Analítica Funcional e Psicopedagogia. Fundadora de uma clínica em SP, atua presencialmente e online. Desde 2016, compartilha conteúdos sobre saúde mental e desenvolvimento humano.

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