Quebra-cabeça particular: uma metáfora para entender a terapia

Escrito por:Mariana Cristina|

Qual a melhor forma de compreender o que é um processo terapêutico?

Esta é uma questão que muito tem me incomodado, pois não são poucos os mitos sobre a ida ao psicólogo. Mas talvez seja pretensiosa a ideia de encontrar a melhor forma para falar sobre este tema. Gostaria de, com este texto, clarificar sua visão quanto à terapia ou, quem sabe, despertar sua curiosidade. Espero que esta seja a melhor forma para você!

Encaro a vida como um quebra-cabeça. Ela contém diferentes peças, advindas de diferentes experiências e está sempre recrutando novos encaixes. Mas há um motivo ainda maior para que eu faça uso desta metáfora. Somos, a todo instante, modificados pelas nossas experiências e interações com o ambiente. Nossa história é, a todo o momento, editada. O que torna a montagem de nosso quebra-cabeça uma missão de todo uma vida. As peças de hoje somam-se às peças de um ano atrás, de ontem ou de agora há pouco. E as peças de amanhã serão novos componentes neste quadro gigantesco. Mas, de forma brilhante, todas fazem sentido de alguma forma. Elas têm, de um lado ou de outro, o contorno ou os resquícios de outra peça já existente. Todas fazem sentido dentro de um quadro maior. Conectam-se.

No entanto, em algum momento deste ir e vir de peças, uma ventania pode pegar-nos desprevenidos e bagunçar o que, com muito zelo, tivemos o cuidado de montar. Hora ou outra, também podemos encontrar um peça difícil para alocar em meio a tantas outras. O não encaixar e (ou) a dificuldade de superar a ventania podem gerar muitos sentimentos adversos. Ansiedade, medo, angústia, frustração, tristeza excessiva e, até mesmo vontade de desistir. Agora, então, a ajuda para realinhar este quebra-cabeça é necessária. Nós Psicólogos entramos em ação. Somos peritos em montar quebra-cabeças e treinados como investigadores!

Um processo terapêutico assemelha-se à montagem de um quebra-cabeça com inúmeras e pequeninas peças. E o que tem de mais desafiador é que apenas o cliente possui as peças deste jogoO terapeuta, muitas das vezes, o ajuda a encontrar o encaixe para cada uma delas e, também, o encoraja a buscá-las na caixa da memória. Começamos, muitas das vezes, utilizando as peças mais recentes, recém-chegadas e, quando necessário, vamos à busca de encaixes mais antigos. O que isso quer dizer?

Quero dizer que, inicialmente podemos conversar apenas de fatos que acontecem na atualidade e que – provavelmente – estão incomodando. Mas, eventualmente, vamos buscar acontecimentos mais antigos, experiências semelhantes e falar de sua história. Tudo isso, para que o terapeuta possa ajudá-lo a encaixar as peças com mais propriedade, entendendo e se apropriando de sua trajetória. Pois, somos, nada mais e nada menos, produtos de nossa história e do que aprendemos.

Costumo dizer aos meus clientes, em algum momento do processo, que juntos montamos o seu quebra-cabeça particular. Esta metáfora tem feito mais sentido a cada dia. Em alguns momentos os encaixes parecem fáceis e, em alguns outros dias, com muita dificuldade encontramos a peça correta. Todo este desafio pode ser instigante e libertador ao cliente. Instigante, pois o conduz a uma viagem em seu próprio universo, passando por terras nunca antes notadas. E libertador, porque conhecer suas peças esquecidas, compreender seus encaixes e funcionamento, o faz apropriar-se de sua própria história.

Quem tem o costume de montar quebra-cabeças sabe que algumas partes são mais simples para montar. Outras, no entanto, contêm peças muito parecidas, que confundem facilmente. Há momentos em que é necessário se debruçar sobre a parte mais complexa, sem hesitar, mas há momentos em que é preciso ir devagar, às vezes, deixar para o dia seguinte. O mesmo acontece com o processo terapêutico: não há tempo definido e existirão momentos mais fáceis e outros mais dolorosos. Por vezes, muitos elementos podem se camuflar, mas, com ajuda, o objetivo é de que a montagem seja mais fácil. Começar pelas bordas ou pela figura mais atrativa, escolher a cor preferida ou a parte mais extensa… não há regras! Independente do início, o objetivo é o mesmo: encaixar a peça final, completar o sentido e ligar todas as pontas. Não há prazer semelhante!

E você, já montou seu quebra-cabeça particular? Aventure-se!

Ps.: para agendar a sua primeira sessão de terapia, clique aqui.

 

Abraço carinhoso,

Mari

Mariana Cristina Fernandes

Psicóloga Clínica com mais de 20 mil horas de atendimento. Especialista em Terapia Comportamental, Psicoterapia Analítica Funcional e Psicopedagogia. Fundadora de uma clínica em SP, atua presencialmente e online. Desde 2016, compartilha conteúdos sobre saúde mental e desenvolvimento humano.

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