"Paladar não dá ré!"

Escrito por:Mariana Cristina|

Há alguns dias atrás, meu marido disse uma frase que alugou um triplex na minha mente por alguns segundos:

“O paladar não dá ré.”

Na hora eu só concordei.

Nós estávamos saindo de uma loja de móveis antigos, dessas especializadas em peças vintage. Nos mudamos recentemente e estamos naquela fase deliciosa — e um pouco caótica — de decorar a casa, produzir os ambientes, escolher móveis, imaginar como queremos viver dentro daquele espaço.

E, claro, nesse processo eu descobri um novo universo.

Já faz alguns meses que todos os meus algoritmos só me mostram decoração, design de interiores, mobiliário… e foi nessas pesquisas que eu descobri, infelizmente para o meu bolso, o design de móveis das décadas de 60 e 70. Designers incríveis, como Sérgio Rodrigues, por exemplo.

Estávamos nessa loja quando notei uma cadeira que chamou minha atenção. Eu fiz a besteira de me sentar nela. A experiência foi incrível. Acho que nunca tinha me sentido tão encaixada, tão confortável, tão ergonomicamente acomodada em uma cadeira. Fiquei chocada. Era realmente muito confortável.

Levantei, perguntei o preço e arregalei os olhos.

Brinquei com meu marido: “Eu não deveria ter sentado nessa cadeira.”

Resolvemos o que precisávamos ali e fomos embora. No carro, voltei a falar sobre aquilo. Sobre como agora eu ficaria pensando naquela cadeira, sobre como provavelmente passaria a desejá-la.

Foi quando ele disse: “Mas o paladar não dá ré, Mariana.”

Pode parecer uma trivialidade, mas eu imediatamente enxerguei muitas camadas nessa frase. Porque o nosso paladar realmente não dá ré — e não só quando estamos falando de comida.

Claro que isso acontece na alimentação. Quando começamos um processo de mudança de estilo de vida, quando passamos a nos alimentar melhor, quando aprendemos a reconhecer um alimento ultraprocessado de um alimento natural, quando experimentamos um alimento orgânico… O nosso paladar literalmente muda. Ele se sofistica. E não volta atrás.

Mas essa ideia vai muito além da alimentação.

Ela também se aplica aos espaços que frequentamos, às companhias que escolhemos, aos relacionamentos que cultivamos e à qualidade de vida que experimentamos.

O paladar não dá ré.

Quando experimentamos um estilo de vida mais saudável, o nosso corpo não quer mais voltar para aquele estado de indisposição, de falta de energia, de cansaço constante.

Quando frequentamos espaços em que somos respeitados, vistos e reconhecidos, não temos mais vontade de voltar para lugares em que nos sentimos apertados, deslocados ou invisíveis.

Quando cultivamos relações de qualidade — íntimas, afetuosas, recíprocas, respeitosas — deixamos de ter interesse em qualquer tipo de companhia, qualquer tipo de afeto.

O paladar não dá ré.

No fundo, tudo é uma questão de experimentação.

Eu me sentei naquela cadeira e agora aquela cadeira não sai da minha mente. Fico me imaginando trabalhando ali, escrevendo minhas cartas, sentada nela. Assim como, quando comecei um processo de mudança de estilo de vida e percebi meu corpo cheio de energia, eu não quis mais voltar para aquele lugar adoecido em que estava.

Talvez, neste momento, você se sinta um pouco perdido. Talvez você nem goste muito da vida que está levando.

Então talvez a pergunta seja outra:

Será que o que está faltando é experimentar?

Talvez esteja faltando calibrar o seu paladar de outra forma. Porque quando a gente experimenta o que é bom…não tem volta.

E está tudo bem!

Com carinho,

Mari

Mariana Cristina Fernandes

Psicóloga Clínica com mais de 20 mil horas de atendimento. Especialista em Terapia Comportamental, Psicoterapia Analítica Funcional e Psicopedagogia. Fundadora de uma clínica em SP, atua presencialmente e online. Desde 2016, compartilha conteúdos sobre saúde mental e desenvolvimento humano.

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