Seu processo de terapia incomoda alguém?

Escrito por:Mariana Cristina|

“Eu quero fazer terapia, mas o meu parceiro não me apoia.”

“Eu quero fazer terapia, mas a minha família não me apoia.”

“Eu estou em terapia e as pessoas próximas vivem falando mal disso.”

Talvez você já tenha ouvido algo como:

“Nossa, você ficou tão chata depois que começou terapia.”

A pergunta que fica é: por que fazer terapia pode incomodar tanto quem está perto de nós?

Essa reflexão apareceu em alguns atendimentos recentemente, e achei importante compartilhá-la aqui.

O processo terapêutico pressupõe um mergulho profundo em autoconhecimento. Mas ele não se limita a isso. A terapia também convida o indivíduo a promover mudanças na própria vida, a transformar aspectos do seu ambiente e a desenvolver novas habilidades emocionais e relacionais.

Ao longo do processo, muitas pessoas começam a:

•falar mais claramente sobre o que precisam;

•expressar desejos;

•estabelecer limites;

•questionar dinâmicas que antes aceitavam em silêncio.

E eu frequentemente me pergunto: por que mudanças como essas incomodariam alguém?

A única resposta que me parece plausível é que essas mudanças podem incomodar quem não se beneficia delas.

Quando alguém começa a se fortalecer, algumas relações inevitavelmente se reorganizam.

Familiares que antes contavam com uma pessoa sempre disponível passam a lidar com alguém que agora estabelece limites.

Parceiros podem se deparar com alguém que expressa com mais clareza o que deseja e o que não aceita mais.

Amigos que estavam acostumados com “a parceirona”, “a mãezona”, “o paizão do grupo” passam a ouvir alguns “nãos” que antes não existiam.

Já faz muitos anos que trabalho em clínica como terapeuta. E, em inúmeras situações, quando alguém próximo do meu cliente começa a reclamar do processo terapêutico dele, acabamos descobrindo juntos algo importante: essa pessoa está sentindo o impacto de perder algumas regalias dentro daquela relação.

Por isso, eu sempre digo aos meus clientes: fazer terapia também é sobre bancar o seu desejo.

É sobre sustentar mudanças nas suas relações.

É sobre desenvolver uma nova postura diante da própria vida.

É sobre aprender habilidades que aproximem você daquilo que deseja construir para si.

Fazer terapia não é apenas sentar e refletir sobre a infância ou a adolescência. É, sobretudo, desenvolver recursos emocionais para viver de forma mais coerente com quem você quer ser.

E, feliz ou infelizmente, quando você começa a caminhar na direção da vida que deseja, algumas pessoas ao redor podem se frustrar com isso.

Porque a sua mudança, às vezes, também exige que as relações mudem.

 

Com carinho,

Mari

Mariana Cristina Fernandes

Psicóloga Clínica com mais de 20 mil horas de atendimento. Especialista em Terapia Comportamental, Psicoterapia Analítica Funcional e Psicopedagogia. Fundadora de uma clínica em SP, atua presencialmente e online. Desde 2016, compartilha conteúdos sobre saúde mental e desenvolvimento humano.

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