“Minha terapia": quando uma atividade não substitui a terapia, mas também pode ser terapêutica

Escrito por:Mariana Cristina|

Acho que eu nunca compartilhei por aqui o meu posicionamento sobre aqueles posts que vemos com frequência nas redes sociais, em que as pessoas fazem referência a alguma atividade cotidiana como “minha terapia”.

Alguém publica uma foto correndo e escreve: “minha terapia”. Outra pessoa mostra uma aula de cerâmica: “minha terapia”. Alguém cozinhando, jardinando, pintando, viajando, e lá está a mesma legenda. Recentemente esse assunto apareceu em alguns atendimentos e pensei que talvez pudesse contribuir com algumas reflexões.

Primeiro, eu entendo a intenção dessas pessoas quando fazem esse tipo de referência. Na maior parte das vezes, elas estão tentando comunicar que aquela atividade possui um potencial terapêutico importante em suas vidas. Que aquilo as ajuda a se regular emocionalmente, a encontrar bem-estar, prazer, satisfação ou até mesmo um senso de presença.

Por isso, eu não costumo ser muito crítica em relação a esse tipo de postagem.

É claro que existem pessoas – principalmente outros colegas Psicólogos – que defendem a importância de diferenciar as coisas e dizem: “mas isso não é terapia!”. E eu até compreendo esse argumento. Também entendo quem problematiza esse uso do termo. Mas este texto não é um convite para entrar nessa discussão.

Na verdade, gostaria de propor outro olhar.

Eu entendo a psicoterapia como um espaço de desenvolvimento pessoal. Para algumas pessoas, ela também é um espaço de tratamento. Para muitas — talvez para todas — ela é uma estratégia importante de autocuidado.

Mas ela está longe de ser a única.

Existem inúmeros contextos nos quais podemos nos conhecer melhor, entrar em contato com diferentes aspectos de quem somos e ampliar nossa consciência sobre nós mesmos. Inclusive, sou uma terapeuta que frequentemente incentiva seus clientes a explorarem atividades, interesses e experiências que lhes proporcionem bem-estar e oportunidades de autoconhecimento.

O que uma prática esportiva pode revelar sobre uma pessoa, eu não consigo oferecer dentro do consultório.

O que uma prática de yoga pode proporcionar em termos de percepção corporal, presença e contato consigo mesmo, eu não consigo reproduzir na terapia.

O que uma conversa com uma nutricionista pode despertar em uma consulta, eu também não consigo proporcionar da mesma maneira.

Da mesma forma, uma experiência religiosa ou espiritual — para quem encontra sentido nesse caminho — pode produzir reflexões e transformações que não pertencem ao campo da psicoterapia.

A psicoterapia é uma via de autoconhecimento.

UMA dentre várias.

É uma estratégia. Um método. Um contexto específico.

Mas jamais se bastará sozinha!

Talvez por isso eu enxergue a terapia muito mais como um espaço que favorece e impulsiona outras experiências de vida do que como um lugar isolado onde todo o desenvolvimento acontece. A terapia pode ajudar alguém a se colocar no mundo com mais consciência, a construir relações mais saudáveis, a experimentar novas atividades, a assumir riscos importantes, a ampliar repertórios e criar uma rede de contextos nos quais continuará aprendendo sobre si mesma.

Porque o autoconhecimento não acontece apenas dentro da relação terapêutica.

Ele acontece na relação com o corpo. Na relação com o trabalho. Na relação com a espiritualidade. Na relação com os afetos. Na relação com os desafios cotidianos.

Por isso, mais do que discutir se corrida é terapia ou se atividade física não é terapia, talvez possamos pensar de outra forma. E se entendêssemos que a terapia tem o seu lugar, mas que outras experiências também têm?

E se compreendêssemos que uma coisa não precisa invalidar a outra? Fazer terapia não significa abrir mão de outras formas de cuidado e desenvolvimento. Pelo contrário. Encontrar bem-estar em outras atividades não significa que a terapia não possa trazer benefícios importantes.

Talvez possamos olhar para tudo isso como estratégias complementares. Caminhos diferentes de autocuidado. Formas distintas de desenvolvimento pessoal. Porque, no fim das contas, quanto mais ampliamos nossa capacidade de aprender sobre nós mesmos em diferentes contextos, maiores costumam ser as possibilidades de crescimento.

Talvez o convite seja justamente esse: ampliar o olhar.

Em vez de reduzir a discussão à pergunta “isso é ou não é terapia?”, talvez possamos reconhecer que existem muitas experiências capazes de promover bem-estar, consciência e transformação.

E que, quando elas se complementam, a vida tende a ficar mais rica — e, quem sabe, um pouco mais leve.

 

Com carinho,

Mari

Mariana Cristina Fernandes

Psicóloga Clínica com mais de 20 mil horas de atendimento. Especialista em Terapia Comportamental, Psicoterapia Analítica Funcional e Psicopedagogia. Fundadora de uma clínica em SP, atua presencialmente e online. Desde 2016, compartilha conteúdos sobre saúde mental e desenvolvimento humano.

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